O debate sobre o fim da escala 6x1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso, está no centro de uma das maiores discussões trabalhistas do Brasil. Por trás da jornada, no entanto, há uma questão mais profunda: a relação entre o tempo de trabalho, a produtividade e a riqueza. Uma análise histórica mostra que o trabalho nem sempre foi medido em horas e que a evolução da produtividade permitiu à humanidade trabalhar menos e, ao mesmo tempo, ficar mais rica.
Trabalho por tarefas: o mundo antes da fábrica
Em 1780, numa aldeia típica da Europa antes das fábricas, o trabalho não era medido em horas, mas em tarefas. Ninguém acordava para cumprir um turno de oito horas; as pessoas acordavam para tirar leite, plantar, consertar a cerca ou tirar água do poço. Quando a tarefa acabava, o trabalho acabava; quando o sol se punha, o dia terminava. No inverno, boa parte do trabalho parava, porque a terra congelava.
O historiador inglês Edward Thompson chamou isso de "orientação pela tarefa". O tempo do trabalho era ditado pela natureza, pela estação e pela necessidade do dia, não por um ponteiro de relógio. Apesar da aparência bucólica, a interrupção do trabalho no inverno não era um prêmio. Havia surtos de fome, a dispensa esvaziava e restava torcer para o estoque durar até a primavera.
A chegada da fábrica: o tempo submetido à máquina
A chegada do motor a vapor, no fim do século XVI, trouxe uma nova lógica. Uma máquina cara não podia ficar parada, porque cada hora ociosa é prejuízo. Pela primeira vez, o tempo do trabalhador precisou se conectar ao tempo da máquina: se a máquina roda 12 horas, o trabalhador fica 12 horas disponível. As fábricas criaram regras rígidas, com multas para atrasos — chegar cinco minutos tarde poderia custar meia hora de pagamento — e até para cantar ou assobiar. Havia ainda fraude: patrões adulteravam os relógios da fábrica para encurtar pausas e esticar o expediente.
Foi nesse período que as horas de trabalho atingiram o pico na história humana. Em Londres, chegou-se a 70 horas semanais. Parte da alta era imposta pelos patrões; parte era escolha das famílias, que passaram a querer comprar açúcar, chá, tecidos, louças e outros pequenos confortos. O historiador Ran Devris chamou esse movimento de "revolução do esforço". Por volta de 1800, o ser humano atingiu o pico de trabalho e, em seguida, as horas começaram a cair por 150 anos.
Produtividade: o motor da queda das horas
A queda das horas de trabalho tem uma explicação: a produtividade. Ao contrário do que parece, produtividade não é trabalhar mais, mas produzir mais valor por hora. Um pedreiro de hoje não trabalha mais do que um de 1926, mas constrói muito mais em menos tempo, porque dispõe de betoneira, furadeira elétrica, cimento padronizado, energia e planejamento. O mesmo ser humano, com as mesmas mãos, produz valores radicalmente diferentes dependendo do que há ao seu redor.

Economistas atribuem o crescimento da produtividade a três fatores: capital físico (ferramentas, máquinas, estradas, energia), capital humano (educação, saúde, conhecimento) e a chamada produtividade total dos fatores — organização, tecnologia, instituições, confiança e regras. Esse terceiro motor é difícil de tocar, mas explica por que alguns países são mais ricos. A comparação de duas cidades ilustra: com os mesmos carros e motoristas, uma cidade com semáforos sincronizados, asfalto liso e regras previsíveis tem um trânsito muito melhor do que outra com semáforos mal conectados, buracos e regras instáveis. A diferença está na camada invisível de organização.
Números do trabalho e da riqueza no Brasil e no mundo
Os efeitos da produtividade podem ser medidos. Uma pessoa consome, em média, energia a uma taxa de cerca de 2.500 watts; como uma pessoa em forma numa bicicleta ergométrica gera cerca de 50 watts, seriam necessárias 150 pessoas trabalhando oito horas cada para sustentar o estilo de vida de uma pessoa — e 600 pessoas para uma família de quatro. Em 1970, o trabalhador médio brasileiro trabalhava 2.483 horas por ano; hoje, o número está próximo de 1.994 horas, uma queda de 489 horas por ano, quase dez horas por semana.
Em uma escala de 2.000 anos, a riqueza da humanidade explodiu nos últimos 200, enquanto as horas trabalhadas por semana caíram consistentemente em todos os países. A vida moderna depende de uma cadeia global: roupas de tecido chinês, televisores sul-coreanos, servidores americanos e telas de LED fabricadas em Singapura. O mundo movimenta um batalhão de pessoas que atravessam oceanos para garantir o acesso a esses produtos.
A riqueza também pode ser medida em tempo. Há 200 anos, um trabalhador inglês precisava de mais de seis horas de trabalho para comprar uma hora de luz para leitura à noite; hoje, essa mesma hora de luz custa menos de um segundo de trabalho. Entre 1980 e 2018, economistas mediram o preço, em tempo de trabalho, de uma cesta de 50 matérias-primas básicas — petróleo, gás, trigo, café, cobre, entre outras. Esse preço caiu, na média, 72%. O trabalho que comprava uma cesta em 1980 compra três cestas e meia hoje. Cada hora economizada é uma hora que o mundo devolveu ao trabalhador.
O que se sabe até agora
- O debate sobre o fim da escala 6x1 é uma das maiores discussões trabalhistas do Brasil.
- Antes das fábricas, o trabalho era orientado por tarefas; a chegada da máquina a vapor submeteu o trabalhador ao tempo da máquina, com jornadas de até 70 horas semanais em Londres.
- A partir de 1800, as horas trabalhadas começaram a cair por 150 anos, impulsionadas pela produtividade.
- No Brasil, o trabalhador médio passou de 2.483 horas por ano em 1970 para cerca de 1.994 horas atualmente.
- Entre 1980 e 2018, o tempo de trabalho necessário para comprar uma cesta de 50 matérias-primas caiu 72%.
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